O feminismo seletivo de Hillary Clinton

No mês passado (abril de 2015) Hillary Clinton anunciou oficialmente sua candidatura para a campanha presidencial de 2016, nos Estados Unidos. Hillary, que já havia se candidatado em 2008, resgata o desejo de muitos de ter pela primeira vez uma mulher como presidente do país. Entretanto, ressurge também a questão: para quais mulheres Clinton irá governar?

poster para a nova campanha de Clinton

 

No ano de 2008, Hillary lançou pela primeira vez sua campanha como presidente, e tinha como concorrente no partido Democrata Barack Obama. Portanto, como um fato histórico no país, os EUA se viram divididos entre uma mulher ou um homem negro como concorrentes democratas para presidência. Infelizmente, a campanha acabou se resumindo na seguinte questão: qual barreira social deveria ser quebrada primeiro, a de etnia ou de gênero?

Muitas feministas entraram em apoio à Clinton e construíram os argumentos de sua campanha partindo da ideia de que os dois candidatos não enfrentaram as mesmas barreiras sociais para alcançarem esta candidatura. Para elas, Obama, como um homem negro, gozava de mais vantagens que Clinton, que seria dentre os dois a candidata melhor qualificada para o cargo. (CRENSHAW, Kimberlé)

As feministas por trás desta campanha, Gloria Steinem e Robin Morgan, partindo desta lógica colocam a submissão e o patriarcado como denominadores comuns, permitindo até chegar à conclusão de que a discriminação racial não é um problema tão grande, já que aqueles que a sofrem são menos merecedores. Desse modo, mostrar a mulher como mais merecedora torna o argumento elitista e racista. Estes conceitos se assemelham à Primeira Onda feminista, que ocorreu em meio ao século 19. (CRENSHAW, Kimberlé)

Barack Obama e Hillary Clinton durante suas campanhas para o partido Democrata, em 2008

Durante a Primeira Onda, feministas do século 19, lideradas por Susan B. Anthony e Elizabeth Stanton, lutavam pelo sufrágio feminino. Essa luta coincidiu com a busca do sufrágio dos homens negros. Como ocorreu com Hillary, estas feministas perderam a campanha, resultando na 15° Emenda da Constituição norte-americana, que concedia o direito ao voto para os homens recém-libertos da escravidão. Como resultado, Anthony e Stanton chegaram a acabar com a união de seus aliados abolicionistas e participaram de campanhas racistas e de imperialismo global, tudo em troca de votos para o sufrágio feminino. Estas afirmavam seu conceito de que mulheres brancas eram bem melhores posicionadas para participarem no processo político do que homens negros. (CRENSHAW, Kimberlé)

Steinem (1998) durante a campanha de Hillary chegou a afirmar que “Homens negros obtiveram o direito de votar meio século antes que as mulheres de qualquer raça” (tradução nossa) como forma de argumento, sem considerar os anos de sofrimento e brutalidade que estes homens sofreram para poder alcançar essa vitória de reconhecimento. Não é necessário citar dados para sabermos que mulheres brancas estão em desvantagem quanto a homens brancos, entretanto devido seus laços, vemos que as mulheres brancas estão em todos os lugares em que homens brancos estão. O mesmo não é verdade para os homens negros, que em relação a inúmeras variáveis, como saúde, riqueza e educação, estão em grande desvantagem quanto às mulheres brancas. O argumento, portanto, de que Obama possui uma vantagem natural a Hillary mesmo esta sendo melhor qualificada não é verdadeiro. (CRENSHAW, Kimberlé)

As alegações de que as barreiras ao feminismo ou do racismo possui a maior urgência para ser quebrada são abstratas e baseadas em fatos transhistóricos, os tornando abstratos. Quando os grupos sociais que necessitam representação são postos um contra os outros, a solidariedade a um constitui a traição ao outro. Este fato é visível nas campanhas geradas tanto por Anthony e Stanton quanto por Steinem e Morgam. Em ambas campanhas, o ideal feminista acabou se reduzindo a luta pelos direitos das mulheres brancas de elite, sendo estas aquilo que ficou conceituado como mulher.(CRENSHAW, Kimberlé)

Mesmo estes grupos afirmando que apoiavam também os direitos às mulheres negras, seus argumentos acabavam marginalizando-as e criando a ideia de que a mulher branca é a melhor qualificada, a ideal, e que os problemas das mulheres negras não seriam “problemas das mulheres”. Seus argumentos mostravam portanto que esta solidariedade era apenas simbólica e não substantiva. Vemos como paralelo às duas campanhas, portanto, a criação de uma hierarquia de raça e classe. (CRENSHAW, Kimberlé)

Ainda quando não estava por trás de suas campanhas feministas, Clinton atuava demonstrando certa discriminação em suas ações. Ela estava atrás de decisões como a de expandir a luta as drogas e encarceramento em massa (o que claramente possui um impacto mais nocivo aos americanos negros do que aos brancos, já que estes são alvos da polícia movidos puramente por uma razão de discriminação racial) e diminuição dos benefícios para aqueles morando em situação de pobreza (cuja pequena parcela, estatisticamente, é constituída por pessoas brancas).

Em sua campanha para presidência de 2016, Hillary já afirmou que dará mais atenção a medidas feministas, além de adotar uma postura diferente de sua campanha de 2008. Na primeira campanha, Clinton se mostrava como uma “dama de ferro” que não era do tipo de “ficar em casa e fazer cookies”. Já nesta nova fase, a ex Secretária de Estado vem se mostrando cada vez mais uma mulher, sempre lembrando que agora não é só mãe como avó, evidenciando sempre as questões da saúde das crianças e da família.

Resta agora sabermos se os ideias feministas aos quais Clinton irá buscar incluem todas as mulheres, ou se questões de discriminação voltarão a ser pauta em sua campanha.

 

 

Fontes / Para Saber Mais

CRENSHAW, Kimberlé – The Curious Resurrection of First Wave Feminism in the U.S. Elections: An Intersectional Critique of the Rhetoric of Solidarity and Betrayal em Sexuality, Gender and Power: Intersectional and Transnational Perspectives, Nova Iorque, 2011

DANIELS, Jessie – Hillary Clinton: Good for White Feminism, Bad for Racial Justice. Disponível em Racism Review. Acesso em 13 maio. 2015.

EPSTEIN, Jennifer; LERER, Lisa – Hillary Clinton Is Finally Ready To Run As a Feminist. Disponível em Bloomberg Politics. Acesso em 13 maio. 2015.

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