A Propaganda da Barbie

No mês passado, a Mattel lançou um comercial diferente para a boneca Barbie. Na verdade, a boneca em si é quase deixada no segundo plano (e as bonecas aparecem sequer estão com cabelo alinhado e roupas da moda, como costumamos ver nas propagandas) já que dessa vez o foco foi para propagar a mensagem de que “você pode ser qualquer coisa”. Chamado pela internet de “comercial feminista da Barbie”, o anúncio mostra meninas de mais ou menos seis a nove anos exercendo algumas profissões de adultos, como professora de faculdade, veterinária ou treinadora de time de futebol.

Ainda no final de Outubro, a Barbie inova mais uma vez em sua promoção. O que era pra ser apenas um novo comercial pra divulgar a boneca criada em parceria com a grife Moschino, o brinquedo novamente ganha a admiração dos internautas por trazer um menino brincando com a Barbie (isso mesmo, não é o Ken que está na mão dele!). O comercial foi uma tapa na cara dos propagadores de papel de gênero ao trazer uma versão mirim do estilista e diretor criativo da Moschino, Jeremy Scott, brincando de boneca com mais duas garotas, e mostrando que as crianças podem (e devem!) brincar do que quiserem. Boneca não é um brinquedo só de menina.

Há anos que a Barbie é o sonho de toda menina, e a boneca representa todo o ideal que a mulher aprende como desejável desde a infância: ela é magra, branca, loira, rica, com rosto perfeitamente simétrico, corpo em proporções absurdamente perfeitas (inclusive, praticamente impossíveis de ser reproduzidas na vida real), tem a casa dos sonhos, o carro dos sonhos, é um ícone da moda e da cultura pop e ainda namora o Ken, o boneco correspondente quase os padrões da Barbie, porém no sexo masculino. Nos padrões dos papéis de gênero machistas, a boneca é a última instância da percepção de “universo feminino”: seu mundo é cor-de-rosa e suas maiores preocupações na vida são seu cabelo e suas roupas. É no mínimo irônico que o fabricante decida investir em comerciais que vendam ideais de equidade de gênero e empoderamento da mulher, quando na verdade o seu produto continua propagando padrões inalcançáveis na cabeça das crianças. Não que mulheres padrão Barbie não tenham igual direito às outras de lutar pelo seu espaço, mas ainda é necessário mostrar para as crianças que ser gordinhas, ou baixinhas, ou não serem loiras é igualmente bonito.

Mas vendo por outro lado, as crianças não nascem com esses padrões em sua cabeça, é a forma que são criadas que os impõe. A prova disso é que não é de hoje que a Barbie vem trazendo essa mensagem de “seja o que você quiser ser”. Há pelo menos vinte anos, o fabricante tem investido nas versões profissionais da boneca: Barbie já foi cozinheira, astronauta, cirurgiã, professora, dentista, arquiteta, policial e até corredora de carro. Sua mensagem nunca foi inteiramente machista, mas o diferencial que faz essas propagandas ganharem elogios na mídia hoje é a forma brutal que a sociedade ensina as meninas cada vez mais cedo a serem fisicamente como a Barbie (e aos meninos a serem o absoluto contrário de qualquer coisa relacionada ao universo da boneca). As crianças aprendem que o homem é o macho alfa, o centro do poder da casa e qualquer toque de feminilidade é um escândalo (o nome disso é misoginia!), enquanto as mulheres, como Simone de Beauvoir denuncia em sua obra “O Segundo Sexo”, precisam manter uma fixação narcisista com a própria aparência e policiar o próprio comportamento para serem aceitas na sociedade. Mesmo que seja visando lucro, o fabricante está disposto a desconstruir alguns preconceitos relacionados a boneca, gora é necessário que a sociedade também tenha a mente aberta para garantir que as crianças possam de fato entender o slogan “you can be anything”.

“Boneca é coisa de menina!”

Fontes/Para Saber Mais

BEAUVOIR, Simone – O segundo Sexo, Paris, 1949

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