Nosso corpo não é pedaço de carne! Faça um ESCÂNDALO

O programa Masterchef é um sucesso mundial, consagrando os cozinheiros amadores de todo o mundo. No Brasil, a franquia veio na versão adulta e, pela primeira vez neste ano, também na versão infantil. O Masterchef Júnior, trazido pela Band, traz diversas crianças cozinhando e mostrando seu talento para chefs renomados no país.

Valentina, uma criança, em uma de suas aparições no programa. Apenas cozinhando, porém infelizmente altamente sexualizada

O programa estreou dia 20 de outubro, mas o que mais chamou a atenção dos espectadores não foi a atuação dos participantes, mas sim uma participante em especial. Valentina, de 12 anos, se tornou o centro das atenções não por suas habilidades na cozinha, mas pela controvérsia gerada pelos comentários feitos de sua imagem. Diversos comentários no Twitter (rede social) foram feitas após as aparições de Valentina. O conteúdo era a mais pura sexualização de seu corpo, puras afirmações de pedofilia, declarados livremente na internet. Muitos repudiaram tais afirmações, mas infelizmente muitos defenderam o conteúdo de pedofilia dos comentários, ou ainda condenaram a ação mas não conseguiram vê-la como criminosa.

Laura Lowenkron em seu texto Abuso sexual infantil, exploração sexual de crianças, pedofilia: diferentes nomes, diferentes problemas? conta como é recente a criminalização da sexualização de crianças. Apenas no final do Século XX que cresce a vertente empenhada em condenar as ações de violência física e maus tratos contra crianças. Termos e contextualizações criminosas surgem como problema político a partir da atuação da segunda onda do movimento feminista, relacionando o abuso sexual e a exploração a desigualdades de gênero. A noção do modelo patriarcal e sua implicação na vida das mulheres é elucidado e trazido para discussão, crescendo a noção da violência de gênero, dos homens contra mulheres e meninas.

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Exemplos de comentários feitos à Valentina de teor sexual

Os defensores dos agressores de Valentina ou aqueles que cometeram o crime, portanto, não conseguem entender o crime devido arranjos sociais que fortalecem e determinam a mulher como frágil e refém dos prazeres masculinos. O termo pedofilia em si é considerado errado segundo Lowenkron. A ideia acaba peculiarizando o feito e associando o problema a uma patologia de certos indivíduos, escondendo as dimensões sociais e culturais do fenômeno. Além disso, torna apenas o contato físico como abuso, sendo que não é apenas esta a forma de contato necessária. Fatos do cotidiano, ataques verbais, são também exemplos de assédio.

Em busca de dar luz ao problema e mostrar como não ocorre apenas entre certos usuários de uma rede social e Valentina, o projeto feminista Think Olga surgiu com a hashtag #PrimeiroAssédio na mesma rede social para demonstrar como este não foi um caso isolado, e que infelizmente faz parte do cotidiano de inúmeras, se não todas, mulheres brasileiras. Diversas mulheres foram corajosas e compartilharam suas histórias, mas ainda muitos homens criticaram e rebaixaram a situação. A partir do sucesso de 82 mil relatos, o Think Olga reuniu os dados e relatou as informações do primeiro (em muitos casos o primeiro de muitos) assédio das brasileiras que participaram. Veja o resultado da pesquisa aqui.

Gráfico com a idade dos primeiros assédios relatados com a hashtag. O Think Olga chegou ao resultado de que o primeiro assédio ocorre em média aos 9,7 anos das meninas. fonte: Think Olga

Em relação à Valentina, no segundo episódio do programa a emissora resolveu omitir a presença da participante, não exibindo seus pratos e a mostrando poucas vezes durante o programa. A emissora se pronunciou após o primeiro episódio e apenas disse que “repudia os comentários de mau gosto“, e a respeito de seu sumiço, comentou que “é apenas a dinâmica do programa”. Fica evidente, pela atitude da Band, como a sociedade tende a não assumir o caso de sexualização infantil e de machismo, desvalorizando o problema e apenas privando as meninas de sua liberdade, ao invés de condenar o crime e desconstruir noções prévias, informando como estas atitudes são criminosas.

De forma a resumir todo o caso e expor como a misoginia da sociedade brasileira afeta a vida de todas que moram no país, a vlogger e feminista Jout Jout (já falamos dela aqui) lança em seu canal um vídeo a respeito do assunto e ainda convida todos a fazermos um escândalo, campanha que vem sendo adotada e divulgada por redes sociais.

Como nos sugere Jout Jout, faça um escarcéu, faça um escândalo, caso alguma forma de violência e abuso sexual ocorra com você! O silêncio não protege, apenas perpetua a situação.

Fontes / Para saber mais

LOWENKRON, Laura. Abuso sexual infantil, exploração sexual de crianças, pedofilia: diferentes nomes, diferentes problemas?. Disponível em E-publicações UERJ. Acesso em 01 novembro. 2015.

O POVO. Participante do Masterchef Júnior é alvo de pedofilia nas redes sociais; saiba como denunciar o crime. Disponível em O Povo. Acesso em 01 novembro. 2015.

O terror do Estado Islâmico: as tropas femininas curdas

Mulheres combatentes do PKK
Mulheres combatentes do PKK

            “Para Louro (1997, p. 77), gênero refere-se “ao modo como as diferenças sexuais são compreendidas numa dada sociedade, num determinado grupo, em determinado contexto”. Isso quer dizer que não é propriamente a diferença sexual – de homens e mulheres – que delimita as questões de gênero, e sim as maneiras como ela é representada na cultura através do modo de falar, pensar ou agir sobre o assunto.”

          Quando ouvimos falar em guerra a primeira coisa que vem em nossa mente são homens armados se digladiando. Afinal os homens são fortes e tem instinto de combate, enquanto que as mulheres são seres frágeis que devem ser protegidos, não é mesmo? Na verdade não, no oriente médio na luta contra o Estado Islâmico as mulheres não apenas são membros integrantes, principalmente, das tropas curdas, como também ocupam funções importantes e tem infringido grandes resistências e derrotas ao estado Islâmico.

Tropas femininas do Peshmerga
Tropas femininas do Peshmerga

          Muitos defendem que os homens e as mulheres tem papeis determinados na sociedade e que esses papeis são naturais, geralmente quando uma pessoa se destaca  em áreas tidas como do sexo oposto, as tratam como exceções. Na guerra área que marca o ápice da masculinidade, não é diferente todas as mulheres que se destacaram nessa área ao longo da historia foram tidas como exceções ou então são pouco conhecidas, como tropas intereiras da segunda guerra mundial. Mas é muito difícil você consideram exceção algumas milhares de mulheres na guerra contra  o EI.

          Os Curdos a décadas lutam pela criação de um estado próprio, e agora vem sendo uma das principais barreiras contra o avanço do Estado Islâmico, suas guerrilhas  entre eles o PKK (partido dos trabalhadores do Curdistão) e o Peshmerga tem juntos em seus contingentes milhares de mulheres participando ativamente na defesa dos territórios curdos em diversas atividades incluindo na luta armada, onde seus números são muito expressivos sendo todas elas voluntarias. Para isso essas tropas contam com equipamento antigo, nenhum apoio militar de países e força de vontade e determinação suficiente para impor derrotas ao EI, nem a coalizão de países encabeçada pelos EUA conseguiram.

          As tropas Peshmergas contam com quatro batalhões de mulheres sendo esses liderados por comandantes mulheres, em sua maioria coronéis que cumprem função de comandantes. Essas mulheres treinam diariamente para o combate e muitas vezes ainda cumprem suas funções em casa, pois elas muitas vezes têm família às quais cuidam. É muito difícil precisar exatamente quantas mulheres são partes dessas tropas, registradas são 600 mulheres, mas esse numero pode chegar aos milhares . Essas mulheres tem uma vontade incrível de lutar pelo seu país, sendo também muitas vezes motivadas pelas atrocidades cometidas pelo EI contra as mulheres.

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           O PKK é grande militante da autonomia das mulheres, sendo assim as mulheres são parte integrante também de suas tropas sendo que elas participaram de igual ao lado dos homens nas vitorias na contra o EI, inclusive na defesa de kobani, território Turco. Para isso essas tropas contam com equipamento antigo, nenhum apoio militar de países e força de vontade e determinação suficiente para impor derrotas ao EI, nem a coalizão de países encabeçada pelos EUA conseguiram.

Fontes / Para Saber Mais:

GERALDO, Inês. Soldadas Peshmerga, sem medo do Estado Islâmico. Disponível em RTP. Acesso em 15 de Outubro. 2015.

Öğünç’s, Pinar. Grupo com mulheres armadas expulsa Estado Islâmico da cidade de Kobani após meses de conflito. Disponível em Sul21. Acesso em 15 de Outubro de 2015.

SAYAO, Deborah Thomes. A construção de identidades e papéis de gênero na infância: articulando temas para pensar o trabalho pedagógico da educação física na educação infantil. Disponível em Pensar a Prática. Acesso em 15 de Outubro. 2015.

Dia 15 de outubro – Ada Lovelace Day

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          Dia 15 de outubro é comemorado o Ada Lovelace Day, o dia para celebrar as conquistas das mulheres nas áreas de tecnologia, ciência, matemática e engenharia, essa data leva esse nome em Homenagem a Ada Lovelace a primeira programadora da historia, a primeira pessoa na historia a escrever um código de programação.

          A programação assim como a informática, é uma área dominada por homens, sendo muitas vezes a capacidades das mulheres menosprezadas nessa área, mesmo assim a primeira programadora foi uma mulher, apesar da maioria das pessoas não saberem disso, nos anos de 1842 e 1843. Bom se o computador moderno foi criado nos anos 40, como a programação surgiu antes do computador? O fato é que a base da programação é bem mais antiga do que o computador ela desenvolveu um algoritmo que permitia calcular funções matemáticas, o primeiro algoritmo da Historia.

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           Augusta Ada King, nascida em 1815, ela era matemática e escritora, e ajudou seu colega Charles Baggage no desenvolvimento da primeira maquina de cálculos para isso ela desenvolveu o algoritmo, cem anos depois a maquina de Baggage foi considerada o primeiro computador do mundo e o código da Condessa de Lovelace o primeiro algoritmo, dando a ela o titulo de primeira programadora d historia, e sinceramente já não é a coisa mais fácil do mundo programar com todo o desenvolvimento atual da tecnologia que nos da mecanismos mais intuitivos de fazer, sem computador, só no papel essa mulher é incrível.

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          Quem a influenciou na sua formação na área da matemática foi sua mãe que também era estudiosa na área, pois a mesma não queria que a filha seguisse o caminho do pai, que a abandonou, após um mês do seu nascimento e morrendo quando ela tinha 8 anos, seu pai era o poeta Lord Byron.

          Ada Lovelace morreu aos 37 anos de câncer no útero não tendo visto a maquina completa, mas nos anos 70 foi desenvolvida a linguagem de programação batizada de Ada em homenagem a mãe da programação.

Fontes / Para saber mais:

ADA LOVELACE. Disponível em Só Matemática. Acesso em 15 de Outubro. 2015.

PENATTI, Giovana. Hoje é Ada Lovelace Day, dia de celebrar os feitos de mulheres na tecnologia. Disponível em Tecnoblog. Acesso em 15 de Outubro. 2015.

SANTINO, Renato. Conheça Ada Lovelace, a 1ª programadora da história. Disponível em Olhar digital. Acesso em 15 de Outubro. 2015.

O aumento do nome social no sistema educacional

          O número de transexuais e travestis que usarão o nome social durante o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) este ano cresceu 172% em relação a 2014, de acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). No ano passado, 102 candidatos e candidatas transexuais e travestis solicitaram o uso do nome social nos dias de prova. Em 2015, o número subiu para 278.

Nome social passou a ser adotado oficialmente na aplicação do Enem desde o ano passado.
Nome social passou a ser adotado oficialmente na aplicação do Enem desde o ano passado.

          O nome social pode ser definido como um nome civil que não aderiu à personalidade da pessoa natural, portanto é o prenome que é utilizado publicamente distinto do nome civil de quem o utiliza.É permitido aos transexuais e, em alguns casos, na vida escolar, quando por exemplo um aluno não quer ser chamado por seu nome civil. Desse modo difere-se nome social de apelido, pois se assim fosse em praticamente todos os atos da vida seria permitido a todos ser chamado por seu apelido, sendo a distinção máxima a falta de aderência do nome civil à personalidade da pessoa natural – exemplo mais aceito : transexual em que o fato de ser chamado por seu nome civil causa constrangimento e exposição notoriamente constante ao ridículo, dado que o nome civil não representa a pessoa natural.

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          É evidente que a utilização de um prenome distinto do nome civil perante a sociedade enfraquece o dever de uso do nome civil, porém em tais casos dá-se primazia à personalidade e respeito aos que, por motivos evidentes, querem ser chamados de nomes distintos do nome civil. Cabe ressaltar que os transexuais podem impetrar ação judicial para mudar seu nome civil, porém como já foi citado o processo é longo e dificultoso, fazendo com que o nome social seja um paliativo à dificuldade de mudar o nome civil em tais circunstâncias.

          O uso do nome social no Enem significa que, nos dias do exame, os transexuais deverão ser tratados pelo nome com o qual se identificam e não pelo nome que consta no documento de identidade. Além disso, usarão o banheiro do gênero com o qual se identificam. Esse é o segundo ano que o Inep permitirá o uso de nome social no Enem. A medida foi tomada em 2014, mas era preciso solicitar o uso por telefone. Neste ano, o pedido foi feito pela internet. O nome social constará também no cartão de confirmação de inscrição que os candidatos recebem pelo correio com informações para o exame, como o local de prova. As medidas foram tomadas depois que duas transexuais tiveram problemas, no ano passado, com a identificação no dia da prova.

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          Com 89 pedidos, São Paulo é o estado que lidera as solicitações, de acordo com o Inep. Em seguida está o Rio de Janeiro, com 33, Minas Gerais, com 29, o Paraná, com 22, a Bahia, com 18, Pernambuco e o Rio Grande do Sul, ambos com 12. Os demais tiveram menos de dez solicitações. Roraima, Acre e Amapá não registraram pedidos.

Para saber mais:

Maiores informações sobre a inscrição com nome social no ENEM 2015: http://portal.inep.gov.br/web/enem/perguntas-frequentes

Para maiores informações sobre o uso do nome social nos sistemas de educação: todospelaeducacao.org.br

ABGLT – Associação Brasileira de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais: http://www.abglt.org.br/port/nomesocial.php

O Lar e a Violência Doméstica

Segundo dados do PNAD/IBGE acerca da violência contra a mulher, em 2009, 80,26% dos casos registrados estão dentro das relações afetivas, 19, 95% relações familiares e 6, 54% se referem a relações externas. Três em cada cinco mulheres já sofreram algum tipo de violência em relacionamentos, sendo que 77% das mulheres que relatam sofrer violência em um relacionamento são agredidas diariamente ou semanalmente. São dados alarmantes que nos trazem à reflexão do papel da mulher dentro do seu próprio lar. A mulher escrava, que se vê obrigada ignorar seus dons em qualquer área que não envolva cozinha, cuidar das crianças, limpeza e organização da própria casa. A mulher, aqui, se torna apenas mais um objeto doméstico, perde a sua identidade para se tornar mãe, amante, cozinheira… Sua prisão social é tão precária que a criação de uma Delegacia da Mulher se fez necessária, uma vez que sua voz não era ouvida nem quando precisava denunciar uma agressão do parceiro.

Faz parte da lógica machista e patriarcal, que a mulher seja um elemento quase que utilitário no ambiente de suas casas, e se por ventura não realize as suas funções da forma desejada pelo “macho” da casa, possa na lógica do agressor ser legitimamente punida física e psicologicamente. Esse tipo de relação abusiva e machista é tão frequente na nossa sociedade que, estatisticamente, o número de homens que sofrem qualquer tipo de violência doméstica em ambientes afetivos ou familiares é inexpressivo se comparado aos das mulheres. Sendo assim não é difícil concluir que, quando o homem sofre algum tipo de agressão, normalmente acontece no seu âmbito social, mas dentro de casa, onde ele tem o poder e o controle de todos a sua volta, quem é agredida é a mulher.

Propaganda do Centro Nacional de Violência Doméstica no Reino Unido. Na imagem, várias mãos foram os dizeres “Não sofra nas mãos de um parceiro”.

Em suas obras, Simone de Beauvoir já denunciava esse papel do homem como o aquele que tem o poder e a voz superior no lar, ele nunca é o outro como a mulher é, não é um fato que gera reciprocidade (BEAUVOIR, Simone). Por exemplo: para os povos estrangeiros nós somos os outros e para nós, eles que são. Esse tipo de reciprocidade não ocorre no lar: a mulher é sempre a outra e o homem é o centro das atenções, ele é o que o feminismo chama de androcentrismo: a medida para todas as coisas. E assim começam as frustrações que geram a violência contra a mulher, como uma forma de silenciá-las, como uma forma de impedir que assumam a sua existência como sujeitos, para fazer que aceitem o seu papel de aceitar as projeções que nelas fazem de seus desejos (BEAUVOIR, Simone). É a partir desse princípio que surge o feminicídio (agress contra a mulher, que vai desde o assédio verbal e outras formas de abuso emocional, até o abuso físico ou sexual), é a reação masculina quando se vê perdendo o poder para o seu próprio objeto.

She never did, bro…

Fontes/Para Saber Mais

BEAUVOIR, Simone – O segundo Sexo, Paris, 1949.

COMPROMISSO E ATITUDE – Dados Estatísticos Sobre a Violência Contra as Mulheres. Disponível em Compromisso e Atitude.Org. Acesso em 11 de Outubro de 2015.